Arparadores Exposição Individual de BonGiovanni

Entre espaços tramados, um lugar

Uma transfiguração do espaço vazio acontece, ao se espraiarem no ambiente arquitetônico feixes luminosos que o dissimulam e se estruturam como obra. Essas rígidas tiras em tensão, mas delicadas em matéria, recompõem esse espaço e trazem à luz aspectos a serem pensados em relação à arte hoje. Inúmeros filamentos paralelos estirados de um canto a outro do espaço provém de magníficos desenhos que, no plano do papel, projetam a ideia e a enunciam. Estes trabalhos fundem arquivos com instalações e, nesse processo, indicam transformações da ação idealizada no plano à sua conquista espacial.

A ambiência é totalmente interligada por estes feixes geométricos, os que chegam a impedir o movimento dos nossos corpos em seu interior, os esperados deslocamentos que poderiam ocorrer naquele lugar. Em troca dos movimentos habituais esperados, ao serem obstruídas as passagens e perturbados nossos hábitos sensoriais da cinestesia comum, os trabalhos instigam à percepção das tensões no espaço, materializadas pelas justaposições dessas numerosas fitas adesivas que ali se alastram em diversas direções. Nessa perspectiva, é possível compreender a obra de BonGiovanni como uma ousadia inventiva importante – ela estimula a pensar na atividade experimental do artista, em especial ao ver-se envolvida na criação de ambientes que articulam a arte e a arquitetura. Em seus Arparadores, construídos através de semielipses tramadas, o genuíno diálogo entre essas áreas torna-se explícito. Mas essa obra não as aproxima apenas ao justapor elementos separados. O espaço torna-se único, o da arquitetura é reconstruído juntamente com a arte. Nesse processo, os trabalhos desse artista apelam ao físico, aos lugares onde se situam nossos corpos e chamam a vivência real desses espaços tramados, radicalmente afastados da virtualidade e da ficção.

Longe da presença de quaisquer abstrações, das amplas possibilidades da arte tecnológica e da produção de imagens, a obra de BonGiovanni traz uma relação material e corpórea com o espaço. Esses trabalhos, sem intermediações, ativam o lugar onde se inserem e por onde se alastram. Mas são mais. Eles sabem provocar, em seu modo sensível, uma amplitude de percepções de um mesmo lugar e de uma mesma urdidura, as que se transformam infinitamente a cada novo encontro com eles.

Mostram que a arte, não preocupada com os objetos que constroem sua história ou com a virtualidade do imaginário de hoje, vem a ser esta insubstituível experiência do embate com a matéria no espaço. Este se dá muito além da retina, ocorre pelo valioso encontro dos nossos corpos com o lugar transfigurado. Nele, os ricos filamentos de transparências e de luz recriam-no em permanência e permitem, a partir desse contato direto com a obra, desencadear outras percepções do lugar, do espaço e da matéria, mas em especial, das nossas próprias relações com a arte.

Mônica Zielinsky
Setembro de 2010